Pregão

Vendo nuvens de cores!
as redondas, vermelhas,
para suavizar os calores!

Vendo os cirros arroxeados
e rosas, as alvoradas,
os crepúsculos dourados!

O amarelo astro,
colhido o verde ramo
do celeste pessegueiro!

Vendo a neve, a chama
e o canto do pregoeiro!

Rafael Alberti (Porto de Santa Maria, Cádis, Espanha, 16 de dezembro de 1902 — Porto de Santa Maria, Espanha, 28 de outubro de 1999)

Mais delícias de nosso português (Agora inspirados por Aurélio)…

Universo Misterioso (@ouniversomisterioso) postou um vídeo do Arquivo Nacional no Instagram e nele “um repórter pergunta a Aurélio Buarque de Holanda, criador do dicionário “Aurélio”, qual é a palavra mais bonita da língua portuguesa?”. Ele disse ser “libélula”.

“Libélula é mesmo linda!”, comenta um seguidor…

Nessa mesma entrevista de 1977, o famoso lexicógrafo, professor, tradutor, ensaísta e crítico literário afirma que, na sua opinião, as 3 palavras mais belas em português, seriam : libélula, murucututu e alvorada.

Nota: “Murucututu” também chamada de murucutu, é o nome popular de uma coruja. Seu nome científico é Pulsatrix perspicillata, e essa ave pode ser encontrada do sul do México até o Sudeste do Brasil.

E os internautas acrescentaram:

alvorada
amancebado
aragem
atacarejo
biscoito
bololô
borocoxô
brincar
brisa
cachaça
cardamomo
cintilar
colibri
crepúsculo
crocante
cumbuca
currupaco
cututu
dengo
efervescente
hibisco
inefável
janela
laguna
lápis lazuli
libélula
liberdade
lúdico
lunar
manauara
manteiga
maravilha
melancolia
menina
murmurar
murucututu
neblina
névoa
orvalho
perdulário
pirilampo
ressonância
saudade
singela
surucucu
tauba
terra
toró
utopia
Via Láctea
vivacidade

Encontrei essa preciosidade no Instagram do Mapa Das Artes Oficial, que fez um repost / @mapadasartesoficial (www.instagram.com/p/DQT9QgMkQLO/)

“Beijo pouco, falo menos ainda
Mas, invento palavras
Que traduzem a ternura mais funda
E mais cotidiana
Inventei, por exemplo, o verbo teadorar
Intransitivo:
Teadoro, Teadora.”

Neologismo – Manuel Bandeira

emaranhados

o tempo o verbo o verso & o reverso: o tempo
os anjos as feras os vermes os seres humanos
a merda o fel a lepra o ovo a clara & a gema
a dracena a verbena a begônia & a calêndula

o tempo: senhor da ação: adormece cicatrizes
devoraignora a memória que o tempo não sara
o tempo: um deus surdo & vingativo: o tempo
[a palavra: esse coágulo no peito & na língua]

Silvana Guimarães (Belo Horizonte, Minas Gerais). In “O corpo inútil (no prelo)”. Finalista ao Prêmio Jabuti 2025 com seu livro de poesia coletivo “Poesia reunida [1966-2009]” em parceria com Maria do Carmo Ferreira e Fabrício Marques (Organizadores), Editora Martelo, e a cerimônia de premiação aconteceu ontem, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. No eixo poesia o vencedor do Prêmio Jabuti 2025 foi o livro “Respiro”, de Armando Freitas Filho, Editora Companhia das Letras

sinta meu pulso

Eis que projeto um poema
sobre o abismo branco
da página em alarme.
Ao primeiro descuido
e à minha revelia,
jaz e volta, germe
que adquire vida própria.
Com poderes de reger-me,
manda que eu vá
pela selva selvagem
dos textos e dos sentidos.
E, antes de ir-me,
com amor me
olha, e diz, como diria
meu pai: fique firme

Fabrício Marques (Manhuaçu, Minas Gerais, 1965). In “Samplers”, Editora Relume Dumará, Rio de Janeiro, 2000. Finalista ao Prêmio Jabuti 2025 com seu livro de poesia coletivo “Poesia reunida [1966-2009]” em parceria com Maria do Carmo Ferreira e Silvana Guimarães (Organizadores), Editora Martelo, e a cerimônia de premiação está marcada para acontecer hoje, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro

Rimbaud et l’air

[para Fabrício Marques, com quem condivido este poema, pelo toque & pelo mote]

Poeta sou,
mas
pelo avesso
chegado ao extremo:
não faço versos.

Verti ao olho
& al dente
uma estação no inferno.

Não vou nessa de Dante:
é sem acompanhante
que trafego

pelas profundas de mim mesmo.

Maria do Carmo Ferreira (Cataguases, Minas Gerais, 21 de dezembro de 1938). In “Cave Carmen”, 2024. Finalista ao Prêmio Jabuti 2025 com seu livro de poesia coletivo “Poesia reunida [1966-2009]” em parceria com Fabrício Marques e Silvana Guimarães (Organizadores), Editora Martelo, e a cerimônia de premiação está marcada para acontecer em 27 de outubro, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro
Nota: Que coincidência de nome. Minha mãe chamava-se Maria do Carmo Ferreira Matosinho e era chamada carinhosamente de “Carmita”.

Vladimir Herzog: Ato religioso recriado 50 anos depois

O ato ecumênico que desafiou ditadura na morte de Herzog que ocorrerá hoje na Catedral da Sé resgata cerimônia que reuniu Paulo Evaristo Arns, Henry Sobel e Jaime Wright contra versão de suicídio. Será celebrada por Dom Odilo Pedro Scherer, auxiliado por um rabino e por uma presbitera. Cinco décadas depois, o novo ato ecumênico será dedicado não apenas à memória de Herzog, mas também a todas as famílias que perderam entes queridos durante a ditadura. A história mostra que há 50 anos, em 25 de outubro de 1975, foi assassinado o jornalista e cineasta Vladimir Herzog. Vítima da ditadura, tornou-se uma figura fundamental para a construção da nossa democracia. Nessa ocasião, oito mil pessoas se reuniram na Sé em memória do jornalista. Ele foi assassinado nas dependências do DOI–Codi paulista. O regime militar divulgou a versão de que o então diretor da TV Cultura teria se enforcado em uma cela, com o cinto do macacão que vestia. A reação da sociedade civil foi imediata. Três anos depois, coube ao jovem juiz Márcio José de Moraes julgar a ação movida pela família de Herzog contra o Estado brasileiro, ainda sob a vigência do AI–5.

O saudoso amigo Fernando Pacheco Jordão (1937 – 2017) conta tudo em seu livro “Dossiê Herzog: prisão, tortura e morte no Brasil” (Imagem abaixo). Muito amigo de Vlado e dirigente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo na época do assassinato, Fernando escreveu esse livro, que já está na sétima edição, revista e ampliada, e constitui documento fundamental para a História do Brasil.

25 de outubro – Ato Inter-religioso 50 anos por Vlado

A programação prevê acolhida a partir das 19h, com participação do Coro Luther King, seguida de manifestações interreligiosas, com a presença de Dom Odilo Pedro Scherer, da reverenda Anita Wright – filha de Jaime Wright, e do rabino Rav Uri Lam.

Apresentações culturais com grandes nomes da música brasileira acontecerão no interior da catedral. Além disso, a exibição de vídeos especialmente produzidos para a ocasião estão previstos, entre eles, a leitura de uma carta de Zora Herzog, mãe de Vlado, feita pela atriz Fernanda Montenegro.

Estarão presentes no evento ainda amigos e familiares de Vlado, parlamentares, ministros, figuras públicas e José Carlos Dias, ex-ministro da Justiça, representando as organizações realizadoras.

Serviço | Data: 25 de outubro de 2025 (sábado) | Horário: 19h | Local: Catedral da Sé – Praça da Sé, São Paulo – SP | Evento gratuito e aberto ao público.