No brejo solitário

Eu encontrei um homem muito velho
No brejo solitário;
Eu sei que sou um cavalheiro
E ele nem tem salário.
Parei e rudemente perguntei:
“Como ganhas tua vida?”
Mas a resposta não me impressionou,
Foi muito descabida.

Disse: “Eu coleto bolhas de sabão,
No meio do trigal,
Ponho as bolhas no forno, faço tortas,
Coloco pimenta e sal,
Vendo para os bravos marinheiros
Que desbravam as tormentas;
E este é meu ganha-pão, senhor;
A sorte é avarenta.
Eu pensava em multiplicar
Por dez aquela conta,
Mas sempre que voltava a perguntar,
Vinha uma resposta pronta.
Não dei bolas às bobagens que dizia
Mas dei-lhe cutucão e pranchaço:
“Me diz como é que ganhas tua vida?”
E nisso belisquei seu braço.

O velho gentilmente retornou a história
e disse: “Eu ando, eu corro
E quando encontro um vale nas montanhas
Num vapt, lhe ponho fogo.
Daí fazem um caldo que eles chamam
Óleo de Macassar;
Porém, quatro tostões é só o que o fabricante
Aceita me pagar.”

Mas eu pensava num projeto
Pra pintar as botinas dos clientes
De verde-musgo, para que, na relva
Ficasse invisíveis totalmente.
Dei uma bofetada em sua orelha
E perguntei de novo
E retorci sua cabeleira cinza
Com grande estorvo.
Ele disse: “Caço com os olhos do hadoque
Na urze luminosa
E os transformo em botões sobretudo
Na noite silenciosa.
Mas não vendo os botões por moeda de ouro,
Nem troco por nenhuma prataria,
E sim por um tostão, que pode comprar
Nove botõezinhos: uma ninharia.

“Na terra escavo às vezes pães de açúcar
Ou ponho isca para os caranguejos;
Às vezes busco rodas de carruagens
Nos prados benfazejos.
E assim, meu bom senhor” – piscou o olho –
“Eu ganho a minha vida;
E para brindar vossa saúde vou secar
Dois copos de bebida.”

Eu o escutei com atenção,
Tendo o meu plano já cumprido:
Lavar a ponte de Menai
Com vinho refervido.
E agradeci por suas histórias
Especialmente sua intenção
De fazer brindes com cerveja
Por minha salvação.

E se hoje por engano eu grudo
Com cola meus dois dedos
Ou se no pé direito, acaso,
Meto o sapato esquerdo;
Ou se no meio de um discurso
Ponho palavras ao contrário,
Penso naquele estranho andante
No brejo solitário.

Charles Lutwidge Dodgson, mais conhecido pelo seu pseudônimo Lewis Carroll (Daresbury, 27 de janeiro de 1832 — Guildford, 14 de Janeiro de 1898). In “Fantasmagoria e primeiros poemas de Lewis Carroll”, Editora Piu, 2023. Traduzido por José Francisco Botelho e Paula Taitelbaum

Autor: ematosinho

Eduardo Matosinho tem 61 anos, nasceu em Ourinhos - SP em 1964 e é economista e sociólogo com bacharelados pela Universidade de São Paulo (USP). É casado com Luiza Maria da Silva Matosinho e com ela tem um filho de nome João Alexandre da Silva Matosinho. Mora em São Paulo e trabalha na Galeria Pontes, dedicada à arte popular brasileira contemporânea (https://www.galeriapontes.com.br/), onde já está há 19 anos. Sempre apreciou pintar e pesquisar sobre a história da arte e seus artistas. Começou a estudar artes plásticas em sua juventude vivida em sua cidade natal com o professor Francisco Claudio Granja (1976-1978). Em São Paulo estudou desenho e pintura em cursos ministrados em um Ateliê Livre por Valdir Sarubbi (1980–1983 e 1998–2000) e pintura com Selma Daffrè (2000-2003).

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