Autor: ematosinho
andrômaca
não conheci troia
ruínas a mais ruínas a menos
do outro lado do oceano
tudo o que aprendi foi nesse alfabeto moderno
eis o momento apoteótico minha obsessão
nossos despojos é troia
minhas amigas encurraladas
na mesa do chefe é troia
a jovem saco preto é troia
a jovem saco preto no rosto
festa de luxo é troia
as baratas roendo o cu
da guerrilheira comunista é troia
é troia meu companheiro baleado no rosto
é troia os corpos desovados no mangue
as lideranças perseguidas é troia
as vítimas de feminicídio é troia
os milicos os fascistas os tiranos
disparam todos contra troia
a filosofia o direito o ocidente
nascem da devastação de troia
agora você entende por que voltei?
não conheci troia mas a entrevejo esplêndida
nas carícias clandestinas durante os bombardeios
e gás de pimenta nas barricadas
nas clínicas de aborto nos abrigos
inusitados na desobediência
no canto sim no canto
eu não vou me entregar
você grita eu repito
através dos séculos
minha irmã
não há poemas para ti
nenhuma linha sobre cibele
onde perdemos o tino quando virou espetáculo
maldita literatura e seu panteão de vitórias
me abrace forte a explosão está próxima
ele há de vir
Luiza Romão (Ribeirão Preto, São Paulo, 1992). In “Também guardamos pedras aqui”, Editora Nós, 2021. Com esse livro foi vencedora do Prêmio Jabuti de Poesia, nesse mesmo ano de seu lançamento
Mais uma pérola da arte popular da Terra Brasilis
Getulio – o criativo e conhecido reciclador do Rio de Janeiro, diz, em entrevista dada à Edna Matosinho de Pontes feita em outubro de 2014, se referindo ao turístico bairro carioca:
“Aí cheguei em Santa Teresa, criei logo o bondinho, o bondinho que é o coração de Santa Teresa, né?”.
Getulio das Sucatas (Espera Feliz – MG, 1955) – Em Santa Teresa – RJ, no “Bonde do Getúlio”, trabalha Getulio Damano, reconhecido artista popular, que recebeu uma ordem da Prefeitura para tirar o sua banca das ruas. Sua produção: carros, caminhões, casinhas mobiliadas de boneca, bonecos, todos batizados segundo sua inspiração ao término da confecção. Foto tirada por Edna.
Minerando ouro
De ouro nada pode se manter
O primeiro verde da Natureza é ouro,
Seu mais árduo tom a manter.
Sua primeira folha é flor;
Mas só por uma hora.
Então a folha se reduz a folha.
Assim o Éden afundou na dor.
Assim a aurora desce ao dia.
De ouro nada pode se manter.
Robert Frost (São Francisco, Califórnia, Estados Unidos, 26 de março de 1874 — Boston, Estados Unidos, 29 de janeiro de 1963), “Nothing gold can stay”. Tradução de Maria da Glória Bordini
Outra pérola da arte popular brasileira
Foi a talentosa ceramista popular de Minas, Dona Izabel, que, em entrevista concedida à Edna Matosinho de Pontes feita em maio de 2013, após se definir como autodidata, cunhou a frase:
“Eu me ensinei sozinha”.
Dona Izabel Mendes da Cunha (Itinga – MG, 1924 – Santana do Araçuaí – MG, 2014) e suas famosas bonecas. Edna achou essa frase tão perfeita e abrangente que a tomou emprestado como título do seu livro “Eu me ensinei”. Foi Edna também que bateu essa fotografia.
Sonho no Paulo
Sonho dentro de um sonho
Receba este beijo sobre a testa!
E, te deixando a partir de agora,
Então, deixe-me te contar:
Você não está errado, você que considera
Que meus dias foram um sonho;
Mesmo que a Esperança tenha sumido
Em uma noite, ou em um dia,
Numa visão ou em nada mais,
É, portanto, o que menos se perdeu?
Tudo o que vemos ou transparecemos
É nada além de um sonho dentro de um sonho.
Permaneço no meio do rugido
De uma onda agitada a “quebrar”,
E seguro dentro de minha mão
Grãos da areia dourada –
Quão poucos!! Ainda, enquanto eles escorrem
Por entre meus dedos, lá para o fundo [da água],
Como eu lamento, como eu lamento!!
Ó, Deus! Não posso agarrá-los
Com um cinto apertado?
Ó, Deus! Não posso guardar nenhum deles
Da onda impiedosa [do Tempo]???
Tudo que vemos ou transparecemos,
Não é mais que um sonho dentro de um sonho??
Edgar Allan Poe (Boston, Estados Unidos, 19 de janeiro de 1809 – Baltimore, Estados Unidos, 7 de outubro de 1849). In “Histórias extraordinárias”
Pérola da arte popular de nosso país
Como disse o saudoso artista popular alagoano de nome Seu Fernando:
“Ando Por Aqui Assim Rodrigues dos Santos”…
Fernando Rodrigues, escultor, cronista e poeta (Ilha do Ferro, Município de Pão de Açúcar, Alagoas, 1928 – 2009). Frase dita por ele em entrevista à Edna Matosinho de Pontes feita em junho de 2008. Ela comenta que na ocasião ele “respondeu (dessa forma) fazendo graça quando eu lhe perguntei como se chamava”. A foto também foi batida por Edna.