Poema cujo início da parte II foi recitado de cabeça por Buñuel

I

Descalzo de las cosas
jqué polo sur el del alma!

Torre de los luceros
¡qué telegrama herido
de gritos lleva el viento!
Al corazón del mundo lo han matado
las flechas de los nuevos flecheros.

Y el eco deshilvana
la bobina sonora de todas las campanas.

II

La noche ajusticiada
en el patíbulo de un árbol.
Alegrías arrodilladas
le besan y ungen las sandalias

Vena
suavemente lejana
—cinturón del Globo—.

Arterias infinitas
mares del corazón que se desangra.

III

Ya el buque de los alios
con la brújula rota
está varado.
En el cielo
quietas a media asta
las miradas de los luceros.
Sólo una barcarola
ilumina los vientos
y oscurece las olas.

Rafael Alberti (Porto de Santa Maria, Cádis, Espanha, 16 de dezembro de 1902 — Porto de Santa Maria, Espanha, 28 de outubro de 1999). Poema publicado na edição de número 3 da revista “Horizonte” em 15 de dezembro de 1922

Tradução literal do trecho II feita parte por Rita Braga e parte por mim:

A noite executada
no patíbulo de uma árvore.
Alegrias ajoelhadas
beijam e ungem suas sandálias

Veia
suavemente distante
—cinturão do Globo—.

Artérias infinitas
mares do coração sangrando.

Luis Buñuel (Calanda, Espanha, 22 de fevereiro de 1900 — Cidade do México, México, 29 de julho de 1983). Fac-símile da página 84 e de outras duas de seu livro autobiográfico intitulado “Meu último suspiro” (originalmente “Mi último suspiro”), escrito por esse renomado cineasta espanhol com a ajuda de Jean-Claude Carrière (Colombières-sur-Orb, Hérault, França, 17 de setembro de 1931 – Paris, França, 8 de fevereiro de 2021). Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1982. Tradução de Rita Braga

Círios

Os dias do futuro se erguem à nossa frente
como círios acesos, em fileira –
círios dourados, cálidos e vivos.

Os dias idos ficaram para trás,
triste fila de círios apagados;
os mais próximos ainda fumaceiam,
círios pensos e frios e derretidos.

Não quero vê-los, que me aflige o seu aspecto.
Aflige-me lembrar a luz de outrora.
Contemplo, adiante, meus círios acesos.

Não quero olhar pra trás e, trêmulo, notar
como se alonga depressa a fileira sombria,
como crescem depressa os círios apagados.

Konstantinos Kaváfis (Alexandria, Egito, 29 de abril de 1863 – Alexandria, Egito, 29 de abril de 1933). In “Poesia de todos os tempos – Poemas”, 3ª edição, Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1990. Tradução de José Paulo Paes

1650 – 1720, Confederação dos Kariri

Entendi nada, respondi, girando os olhos
pra catraia da outra aldeia
nos chamando pra guerrear juntas
usando aquela língua véa feia.

A essa altura já fazia bem três anos
que botamos as diferenças de lado
tentando botar pra correr
o inimigo comum, insuportável.

Olhe que mesmo sem gostar
daquele bando de biraia
pouco tempo antes quase tomamos Natal
de tão valentes e organizadas!

Bora noiada ti vai ficar batendo boca ou vem pra
emboscada? gesticulou a tribufu sem me dar
escolha. Não gosto de tu mas vou pela peitica,
respondi levantando, uma mão no bacamarte

e a outra na azagaia, sem fazer ideia da chacina
que viria na sela dos paulistas, mas não importa:
só quem não pode com o pote
é que não pega na rodilha.

Adelaide Ivánova (Recife, 1982). In “Asma”, Editora Nós, 2024. Com esse livro de poesia ela, que é de ascendência russa, foi semifinalista ao Prêmio Jabuti 2025

November without water

Olha-me p’ra estas crianças de vidro
cheias de água até às lágrimas
enchendo a cidade de estilhaços
procurando a vida
nos caixotes do lixo.

Olha-me estas crianças
transporte
animais de carga sobre os dias
percorrendo a cidade até os bordos
carregam a morte sobre os ombros
despejam-se sobre o espaço
enchendo a cidade de estilhaços.

*

Chegas
eu digo sede as mãos
fico
bebendo do ar que respirar
a brevidade

assim as águas
a espera
o cansaço.

Ana Paula Tavares (Lubango, Angola, 30 de outubro de 1952). Essa poeta e historiadora angolana, de 72 anos, foi a vencedora do Prêmio Camões 2025, principal reconhecimento literário da língua portuguesa. In “Poesia africana de língua portuguesa – Antologia”, Editora Nova Aguilar, 2003

Das terras de Benvirá

O anel que tu me deste
Eu guardei pra me ajudar
Construí numa viola
De madeira o teu altar
O amor que tu me tinhas
Eu roubei pra me salvar
Toda hora em que a danada da saudade
Me pega

Joema dos olhos claros
Bem verdes da cor do mar
Me dava tanta alegria
Que eu não preciso sonhar
Basta me lembrar agora
Das coisas que deixei lá
Joema sempre esperando
Na praia do Grande Mar

Waldomiro das estrelas
Não podia se encontrar
Tinha tudo que queria
Dizia tudo a pintar
Olhando pro céu de frente
Perdido sempre em chegar
Waldomiro das estrelas
Pedia para voltar

Que faço agora Maria
Que faço agora diz já
De longe que eu ouço hoje
As coisas que vão voltar
Em ti, em ti, e comigo
Agora no Deus dará
Das coisas de todo mundo
Na vida do Benvirá

Em um dos comentários:
“A foto é mil. Arte para aplaudir.” (@danilofarias7978)

Geraldo Vandré (João Pessoa, Paraíba, 12 de setembro de 1935). Música composta por ele para o pintor naïf baiano Waldomiro de Deus (Itagibá, Bahia, 1944) que nesse ano de 2025 completa 60 anos de sua carreira artística premiada e elogiada. Fotos: Evento ocorrido ontem na Pinacoteca de São Paulo para o lançamento do livro “Waldomiro de Deus” que contou com uma conversa entre o artista e o crítico e autor do livro Enock Sacramento (Francisco Sá, Minas Gerais, 1937) no Auditório da Pinacoteca Luz. Foi organizado pelos Amigos da Pina e contou com a venda dos livros no local e o quadro da foto faz parte do acervo permanente do museu e encontra-se exposta no 2º andar do prédio.