Da
do
Mor
no
Jornal
Tícia
Te
Jardim
Luz
Blog de Eduardo Matosinho – ematosinho@uol.com.br – WhatsApp: (11) 9 9781-4370
Da
do
Mor
no
Jornal
Tícia
Te
Jardim
Luz
Entrei no café com um rio na algibeira
e pu-lo no chão,
a vê-lo correr
da imaginação…
A seguir, tirei do bolso do colete
nuvens e estrelas
e estendi um tapete
de flores
a concebê-las.
Depois, encostado à mesa,
tirei da boca um pássaro a cantar
e enfeitei com ele a Natureza
das árvores em torno
a cheirarem ao luar
que eu imagino.
E agora aqui estou a ouvir
A melodia sem contorno
Deste acaso de existir
– onde só procuro a Beleza
para me iludir
dum destino.
José Gomes Ferreira (Santo Ildefonso, Porto, Portugal, 9 de junho de 1900 — São João de Brito, Lisboa, Portugal, 8 de fevereiro de 1985). Esse poema foi publicado originalmente no livro “Poesia I”, lançado em 1948, e posteriormente foi reunida na trilogia “Poeta militante” (1977 – 1978) e em antologias gerais de sua obra
1
Tenho sete namoradas
na Rua de Lá Vem Um.
Sete facas apontadas
ao coração em jejum.
2
Meu compadre S. João
das fogueiras, das cantigas!
— Ficarei par ou parnão
no jogo das raparigas?
3
Não julge lá que me enjeita,
assim, com duas razões!
(O meu demónio aproveita
as melhores ocasiões…)
4
Meninas, vossos amores
lembram-me a água corrente.
Na margem, prados e flores;
ao meio… afoga-se a gente!
5
Amorzinho, lua nova,
rica fruta de pomar!
— Quem será que tira a prova
do vinho do teu lagar?
António de Sousa (Porto, Portugal, 1898 — Oeiras, Portugal, 1981). In “Livro de bordo”, segunda edição, Lisboa: Publicações Europa-América, 1957
Feita em parceria com a minha afilhada Maria do Carmo Matosinho Peres de Pontes
Pedrinhas da rua,
Por todos pisadas,
Muito hão-de sofrer!
Parece-me, às vezes,
De tão magoadas,
Que as oiço gemer…
Que boa era a vida
Na serra distante
Entre os rosmaninhos!
Só viam de longe
Algum viandante
Passar nos caminhos.
Ouvindo cantar
Com voz sonhadora
Certa pastorinha,
Pensavam: será
A Nossa Senhora
Que está na ermidinha?
À chuva e ao sol
Viviam contentes,
Tinham liberdade.
Mas tudo mudou:
Hoje são diferentes…
Ai! Quanta saudade!
Partidas em mil
Foram torturadas
Até que, por fim,
Cravadas no chão
Sofrem desprezadas,
Tormentos sem fim.
E os pés descalcitos
De alguma criança
Das mais pobrezinhas,
São o único afago
Na vida sem esperança
Das tristes pedrinhas.
…………………….
Pedrinhas da rua
Por todos pisadas
Muito hão-de sofrer!
Parece-me às vezes,
De tão magoadas,
Que as oiço gemer…
Maria Lamas (São Pedro, Torres Novas, Portugal, 6 de outubro de 1893 — Alcântara, Lisboa, Portugal, 6 de dezembro de 1983). Poema publicado sob o pseudônimo de Rosa Silvestre, no suplemento “Semana infantil” do jornal A voz, n.º 279 – Novembro 1927, p. 3
A cantora, compositora e escritora Esmeralda do Carmo Ortiz, moradora de São Paulo, com o ensino médio feito no Colégio Santa Cruz e formada em jornalismo pela Universidade Anhembi Morumbi, sobe ao palco com a força de mais de 20 anos de trajetória, evidenciando o talento nato que a arte lhe revelou. Ela segue apresentando o espetáculo “Guerreira” (Selo Sesc-SP) — um mergulho profundo na música negra brasileira, resgatando as suas raízes afro, com faixas autorais e releituras de clássicos de Clementina de Jesus, Jovelina Pérola Negra, Dona Ivone Lara, Beth Carvalho, Bezerra da Silva e muito mais. Essa artista tem 3 livros lançados, sendo que o primeiro traz a sua autobiografia, e realiza palestras de superação e sobrevivência.
O diário da rua
Como vive uma criança de rua? É possível ter sonhos e brincar, vivendo em um cotidiano de abandono e violência? Autora e personagem deste diário, Esmeralda relata como, contando com alguma ajuda e um imenso amor à vida, conseguiu sobreviver.
Editora: Moderna Literatura
Data da publicação: 2 outubro 2003
Número de páginas: 64
Esmeralda – Por que não dancei
“Esmeralda – Por que não dancei” é o depoimento de quem esteve nas ruas desde os oito anos, convivendo com a violência, as drogas e a indiferença. É mais ainda – é o roteiro de seu renascimento, da construção da sua autoestima, da recuperação da dignidade de um ser humano.
Editora: Ática
Data da publicação: 1 janeiro 2010
Número de páginas: 208
As incríveis histórias do Tio Barbudo
Viver nas ruas é a única saída para muitas pessoas empurradas para a marginalidade pela própria sociedade. É um mundo sem lei onde a violência impera, o abuso sexual está sempre presente e a droga arrasa desde os primórdios da infância.
Esse submundo só não tem um enredo pior porque muitas crianças são acolhidas pelos “pais e mães da rua” que assumem a responsabilidade de cuidar destes filhos de ninguém, como o Tio Barbudo, um personagem inspirado em um sem-teto que vaga pela cidade de São Paulo e fez parte da infância da autora, que viveu e sobreviveu a esses revezes.
As Incríveis Histórias do Tio Barbudo não é utopia, esbarra na realidade e escancara para o mundo a importância do amor desses anjos protetores que são chamados de pais e mães da rua pelos seus protegidos.
Editora: Uirapuru
Data da publicação: 17 maio 2019
Número de páginas: 56
Contatos:
www.facebook.com/esmeralda.docarmoortiz
www.instagram.com/esmeraldaortiz.artista
esmeortiz@gmail.com
WhatsApp: (11) 9 8724-2853
Fazia papa-luaça
com lama azul dos paúis;
e embaciava a vidraça;
ou de olhos baços, azuis,
parados, largos, serenos,
como o silêncio dos mudos,
ou fitos, picos, pequenos,
venenos de ângulos agudos.
Ou gargalhava estridente
como um riscar de repente
de uma faúlha de luz
em escuros de urros e uuus
que arrefecia os cabelos!
E a dissonância em novelos
rolava fundo e medonho
a meio do chão:.. Catrapuz!…
como um vómito de luz
a estoirar dentro dum sonho!
Ou escancarava a vidraça
a rir pedradas de lata;
mas logo o feixe-desfeixe
porque a lata se desata
e cai em pata de pata
na lájea das cousas mortas
das mortas noites sem portas!
E logo a Noite corria,
e a vista via… – não via:
porque entre o ver e o não ver
há uma distância a correr
que pode ser… – ou não ser
uma distância a valer!
Aquele espaço intervalo
dum cabelo ou duma unha
à sensação de ter unha
é uma distância a cavalo
como a distância da unha
ao movimento da unha!
É como a longa distância
que vai do ferro da lança
à sua prova de força,
que vai do salto da corça
à unha da própria corça!
Que vai da gente ao cabelo
– que será, ou não, distância… –
porque a gente não é pêlo,
nem tem a ânsia de sê-Io,
mas pode a gente ter ânsia
de ter ânsia de ser pêlo!
Que coisa ausente ou presente,
que ponte desune ou une
o meu sentir ao meu dente,
o que sente ao que não sente,
e como em mim se reúne?!
A sensação da Matéria
é não ser tudo o que falta:
que quem o é já não salta
por sobre a própria Matéria;
que quem o é… não é quem,
porque quem é ser alguém,
indivíduo é ser divíduo,
– dividido o aqui do além!
“A parte que em nós não sente
arvorou no consciente
a sensação de ser gente
e da coisa inconsciente!
Deste tudo e deste nada
nasceu a forte razão
que separa o sim do não
e os valores de tudo e nada!”
Mário Saa (Caldas da Rainha, Portugal, 18 de junho de 1893 – Ervedal, Portugal, 23 de janeiro de 1971). In “Antologia poética”