Doralinda

Eu queria te dar a lua
Só que pintada de verde
Eu queria te dar as estrelas
De uma árvore de Natal
E todo o dinheiro falso do mundo

Eu queria te dar
Um carro conversível
Forrado de branco
Uma viagem pelo mundo
Num navio branco
E um sapato com salto de brilhante
Pra você passear
Passear
Porque te amo, te adoro e venero
Eu sou louco por você
Porque te amo, te adoro e venero
Eu sou louco por você

Eu queria te dar
Eu queria te dar um vison
Pra você andar no inverno na praia
Em Santa Catarina
Eu queria te dar
Eu queria te dar um amor
Que talvez eu não tenha pra dar
Ah…

Você não é bonita
Você não é nem charmosa
É tímida e envergonhada
Minha Olívia Palito
Mas singraria sete mares
À tua procura
E te daria uma vida bem segura

Às vezes te vejo
Lavando a sua roupa
Com aquele cheirinho de sabão
Eu queria te dar
Uma máquina de lavar
Secar, lavar prato
Te maquiar
Te ensinar a falar inglês
Porque você é uma rainha
Mas a vida é assim
O que tem que ser já é
Bonito, Doralinda

João Donato (Rio Branco, Acre, 17 de agosto de 1934 – Rio de Janeiro, 17 de julho de 2023) / Cazuza, nome artístico de Agenor de Miranda Araújo Neto (Rio de Janeiro, 4 de abril de 1958 – Rio de Janeiro, 7 de julho de 1990)

As diferenças entre os ritmos coco, embolada e repente, e conhecendo um pouco mais do cordel

A principal diferença entre eles está nos instrumentos, na velocidade e nas regras dos versos: O coco é uma dança de roda coletiva com batida de pés e palmas; a embolada usa pandeiros em ritmo muito rápido e brincalhão; e o repente (ou cantoria) usa viola com regras severas de métrica.

Coco, origem e formato: Dança e ritmo de roda afro-indígena onde um puxador canta os versos e o grupo responde em coro, acompanhado pelo som de palmas e tamancos no chão. Focado na dança coletiva e festiva do litoral e do sertão, sem a obrigação do duelo verbal rápido.

Embolada (ou Coco de Embolada): Duplas que cantam usando o som acelerado do pandeiro ou ganzá. Ritmo muito rápido, jocoso e embolado, com maior liberdade nas rimas e na métrica. Os cantadores costumam tirar sarro um do outro de forma bem-humorada. A embolada é um tipo de música feita com improviso.

Repente (ou Cantoria): Cantado ao som da viola de sete cordas (ou violão). Exige rigor técnico estrito na contagem das sílabas poéticas e na métrica das estrofes. É um desafio profundo de improviso em que os violeiros discutem temas filosóficos, sociais ou amorosos com regras clássicas da poesia popular. O repente é um canto improvisado. O repente, um gênero típico do nordeste brasileiro, um tipo de música que é muito comum, muito popular naquela região, mas que hoje já é bastante conhecido pelo Brasil.

— “Já se chama ‘repente’ por ser feito de repente, né?”
— “Repente é a pessoa improvisar com rapidez.”
— “É a espontaneidade daquele momento que você está construindo.”
— “Agora, o repente se caracteriza muito por um verso rimado, mas veja bem, repente não é rima. Repente é o verso improvisado, feito na hora.”
— “Nem tudo é o que parece, A gente pode provar Às vezes um lugar verde Tem poluição no ar E o mar parece oceano Mas nunca passa de mar.”

A maior diferença entre embolada e repente é que enquanto os emboladores usam um pandeiro, os repentistas tocam a viola de sete cordas. O ritmo, como em qualquer música, também é muito importante na embolada. E, por ser um gênero improvisado, os emboladores, que geralmente se apresentam em duplas, precisam revezar a música. Ou seja, um canta enquanto o outro pensa em como vai entrar. Quando este que está cantando termina a sua frase, o outro entra logo em seguida, dando continuidade à história, à música. Desse jeito, os dois emboladores conseguem se ajudar.

Falando do cordel, do repente e da embolada a Khan Academy mostra que a gente vai ver que esse tipo de literatura tipicamente brasileira pode ser feito com uma música improvisada, com rimas em escrita ou cantada em versos. Para que a gente entenda melhor como funciona o cordel, o repente e a embolada é interessante que a gente saiba que eles têm origem no nordeste do Brasil. Esse tipo de escrita, esse tipo de música, surgiu nessa parte do país, e ali se desenvolve e é muito popular. Mas hoje ela é bastante conhecida no país inteiro.

O cordel é um tipo de escrita ou de literatura muito comum por ser contada para um público. Ou seja, quem escreve cordel, um cordelista, tem o costume de escrever em um papel e depois editar quantas vezes forem necessárias para que chegue ao resultado que ele deseja. O cordel, por ser comum na transmissão oral, ou seja, por geralmente ser contado para um público frente a frente, ele precisa ser bem escrito, bem elaborado antes de ser apresentado por uma pessoa.

Um exemplo de cordel se chama “A menina que não queria ser princesa”. Ele é bastante comprido, bastante extenso, com vários versos, estrofes e rimas. Destacam duas estrofes. Esse cordel começa desse jeito: “Era uma vez uma menina Dotada de esperteza Nascida lá no sertão Batizada de Tereza Era muito da danada, Arretada de brabeza. Ela muito curiosa Gostava de aventura Carregava bela fama De fazer muita loucura Não fazia nove horas E na queda ela era dura.” Além de ele começar contando uma historinha, a história de Tereza, a gente consegue perceber que ele é cheio de rimas, como uma música mesmo. Na primeira estrofe a gente tem as palavras “esperteza”, “Tereza” e “brabeza” rimando. Na segunda estrofe, a gente tem as palavras “aventura”, “loucura” e “dura”.

Além disso, por ser uma historinha escrita com muitas rimas, estrofes e versos, o cordel também é transmitido no formato de folhetos. O cordelista, ao escrever um cordel, pensa não só no público que vai escutá-lo, mas também no público que vai ler os seus cordéis. Geralmente o artista mostra vários cordéis pendurados em um varal. É assim que eles geralmente se apresentam nas feirinhas populares. E, por fim, uma característica muito particular dos cordéis é que eles geralmente são acompanhados, quando em um folheto, de desenhos. Esses desenhos são chamados de xilogravuras, e podem ser feitos no papel ou talhados na madeira, e depois pintados.

Achado lembrando minha vida provecta de cinéfilo…

Cineclube Oscarito, Praça Roosevelt, 184, assistido por mim nesse cinema em uma das muitas vezes que o vi em 1987: “Crônica do amor louco”, de Marco Ferreri, com Ben Gazzara e Ornella Muti e baseado em um livro de Charles Bukowski.

Crônica do amor louco (Cronaca dello amore pazzo)

Itália/ França – 1981 – Direção: Marco Ferreri – Música: Philippe Sarde – Fotografia: Tonino Delli Colli – Elenco: Ben Gazzara, Ornella Muti, Susan Tyrrell. De 30/07 a 04/08/87 – Horário: 16, 18, 20 e 22 horas.

– Uma regra básica para um filme ser considerado “cult” é a polêmica que ele desencadeia. De “Crônica do amor louco”, por exemplo, não se sai indiferente: ou se adora, ou se detesta. Na já tradicional enquete do CineSesc, “Crônica…” saiu como o melhor do ano de 82. O mesmo se dá com o público universitário que mesmo antes de aderir a literatura de Charles Bukowski – de cujo livro “Ereções, Ejaculações, Exibições…” (no Brasil editado com o título do filme) foi tirado o argumento do filme – já havia elegido “Crônica do amor louco” um dos maiores sucessos do circuito alternativo. Por outro lado, entre os que não gostam do filme, figura o próprio Bukowski, que argumenta ser o “serking” de Ben Gazzara bem comportado demais. Ele parece preferir Mickey Rourke na sua encarnação do alter ego de Bukowski, Henry Chinaski, em “Barfly”, rodado recentemente. Mas que leitor do bêbado Bukowski não vai concordar é que Ben Gazzara está a cara de Charles Bukowski em “Crônica do amor louco”?

– Ornella Muti começou quase como ninfeta em comédias ligeiras e melodramas italianos, até que Marco Ferreri a convocou para protagonizar uma série de filmes, começando com “La ultima donna”, “O futuro é mulher”, inédito em São Paulo sabe-se lá porque (A Companhia Cinematográfica Franco-Brasileira importou há tempos o filme). Em “Crônica…” ela está no auge da beleza, fazendo jus à sua inclusão como “diva” dos anos 80.

Avôhai

Um velho cruza a soleira
De botas longas, de barbas longas
De ouro o brilho do seu colar
Na laje fria onde coarava
Sua camisa e seu alforje de caçador
O meu velho e invisível
Avôhai
O meu velho e indivisível
Avôhai
Neblina turva e brilhante
Em meu cérebro, coágulos de sol
Amanita matutina
E transparente cortina ao meu redor
Se eu disser que é mei’ sabido
Você diz que é mei’ pior
E pior do que planeta
Quando perde o girassol
É o terço de brilhante
Nos dedos de minha avó
E nunca mais eu tive medo da porteira
Nem também da companheira que nunca dormia só
Avôhai
Avôhai
Avôhai
O brejo cruza a poeira, de fato existe
Um tom mais leve na palidez desse pessoal
Pares de olhos tão profundos
Que amargam as pessoas que fitar
Mas que bebem sua vida, sua alma
Na altura que mandar
São os olhos, são as asas
Cabelos de avôhai
Na pedra de turmalina
No terreiro da usina eu me criei
Voava de madrugada
E na cratera condenada eu me calei
Se eu calei foi de tristeza
Você cala por calar
E calado vai ficando
Só fala quando eu mandar
Rebuscando a consciência com medo de viajar
Até o meio da cabeça do cometa
Girando na carrapeta no jogo de improvisar
Entrecortando, eu sigo dentro a linha reta
Eu tenho a palavra certa pra doutor não reclamar
Avôhai
Avôhai
Avôhai
Avôhai

Zé Ramalho (Brejo do Cruz, Paraíba, 3 de outubro de 1949). Lançada em 1978, essa música é o primeiro grande sucesso e faixa-título do álbum de estreia desse paraibano. A música mistura rock, folk e ritmos nordestinos, homenageando seu avô materno, que o criou após a morte de seu pai. O termo “Avôhai” é uma palavra inventada que une “avô” e “pai”. Esse neologismo surgiu na mente dele durante uma experiência mística com cogumelos alucinógenos, quando a palavra ecoou como um turbilhão de ideias. O avô do cantor assumiu o papel central de criação em Brejo do Cruz após a trágica morte do seu pai. A letra usa termos de emboladas de coco, cantorias de viola e referências geográficas do sertão nordestino. Antes de estourar na voz do autor, a canção foi gravada timidamente pela cantora Vanusa em 1977. A versão de Zé Ramalho de 1978 foi a primeira de sua carreira a tocar nas rádios brasileiras, projetando-o nacionalmente e gerando comparações com o estilo poético de Bob Dylan

Recife, cidade lendária

Musical “Capiba, pelas ruas eu vou…”
O compositor de Pernambuco, Capiba (1904-1997) foi homenageado nesse musical que mostra a sua trajetória, ele que é um dos artistas mais talentosos e mais reverenciados desse estado. E apresenta as milhares de facetas desse mestre do frevo que cantou e encantou Recife e Olinda e animou o primeiro voo do Galo da Madrugada.

Eu ando pelo Recife, noites sem fim
Percorro bairros distantes sempre a escutar
Luanda, luanda, onde está?
É alma de preto a penar
Recife, cidade lendária
De pretas de engenho cheirando a banguê
Recife de velhos sobrados, compridos, escuros
Faz gosto se ver
Recife, teus lindos jardins
Recebem a brisa que vem do alto mar
Recife, teu céu tão bonito
Tem noites de Lua pra gente cantar
Recife de cantadores
Vivendo da glória, em pleno terreiro
Recife dos maracatus
Dos tempos distantes de Pedro primeiro
Responde ao que eu vou perguntar
Que é feito dos teus lampiões?
Onde outrora os boêmios cantavam
Suas lindas canções

Lourenço da Fonseca Barbosa, mais conhecido como Capiba (Surubim, Pernambuco, 28 de outubro de 1904 — Recife, Pernambuco, 31 de dezembro de 1997). Essa música é uma homenagem ao Recife, capital de Pernambuco. Capiba foi o maior compositor de frevos de lá e essa letra retrata o Recife antigo com uma forte carga poética e sentimental, trazendo também referências diretas à diáspora negra e à marca da escravidão na formação cultural local. Fala de velhos sobrados escuros e compridos da cidade e evoca imagens do tempo antigo e a alma que resiste no presente recifense. Ouvi essa música ontem sendo interpretada pelo cantor Will durante o espetáculo musical “Capiba, pelas ruas eu vou”, uma bela homenagem à esse grande músico compositor pernambucano, pianista do cinema mudo, que já lia partituras antes de aprender a ler, com sua genialidade, compôs mais de duzentas canções, frevos, sambas, maracatus, valsas, canções e até músicas eruditas. Em cena estavam 43 bailarinos-cantores e uma orquestra de câmara executando sua música ao vivo e a peça teve a direção geral de Cecilia Brennand