Autor: ematosinho
O carro da miséria (Trecho)
A Carlos Lacerda
I
O quê que vêm fazer pelos meus olhos tantos barcos
Lenços rompendo adeuses presentinhos
Charangas na terra-roxa das estações um grito
Um grito não um gruto
Que me faz esquecer a miséria do mundo pão pão…
O quê que vem fazer na minha boca um beijo
A mulher da Bolívia agarrando
Um penacho de viúvas restritas
Restritas não restrutas
Que o papagaio repassa e põe na vida…
Ah… caminhos caminhos caminhos errados de séculos…
Me sinto o Pai Tietê. Dos meus sovacos
Saem fantasmas bonitões pelos caminhos
Penetrando o esplendor falso da América.
Dei-vos minas de ouro vós me dais mineiros!
Glória a Cícero nas vendinhas alterosas
Com a penugem dos pensamentos sutis
Feito ninho de guaxe
O passado atrapalha os meus caminhos
Não sou daqui venho de outros destinos
Não sou mais eu nunca fui eu decerto
Aos pedaços me vim – eu caio! – aos pedaços disperso
Projetado em vitrais nos joelhos nas caiçaras
Nos Pireneus em pororoca prodigiosa
Rompe a consciência nítida: EU TUDOAMO.
Ora vengam los zabumbas
Tudoamarei! Morena eu te tudoamo!
Destino pulha alma que bem cantaste
Maxixa agora samba o coco
E te enlambuza na miséria nacionar.
Mário de Andrade (São Paulo, 9 de outubro de 1893 — São Paulo, 25 de fevereiro de 1945)
Poke
Cachorro vira-lata
Eu gosto muito de cachorro vagabundo
Que anda sozinho no mundo
Sem coleira e sem patrão
Gosto de cachorro de sarjeta
Que quando escuta a corneta
Sai atrás do batalhão
Eu gosto muito de cachorro vagabundo
Que anda sozinho no mundo
Sem coleira e sem patrão
Gosto de cachorro de sarjeta
Que quando escuta a corneta
Sai atrás do batalhão
E por falar em cachorro
Sei que existe lá no morro
Um exemplar
Que muito embora não sambe
Os pés dos malandros lambe
Quando eles vão sambar
E quando o samba já está findo
Vira-lata está latindo a soluçar
Saudoso da batucada
Fica até de madrugada
Cheirando o pó do lugar
Eu gosto muito de cachorro vagabundo
Que anda sozinho no mundo
Sem coleira e sem patrão
Gosto de cachorro de sarjeta
Que quando escuta a corneta
Sai atrás do batalhão
Eu gosto muito de cachorro vagabundo
Que anda sozinho no mundo
Sem coleira e sem patrão
Gosto de cachorro de sarjeta
Que quando escuta a corneta
Sai atrás do batalhão
E até mesmo entre os caninos
Diferentes os destinos
Costumam ser
Uns têm jantar e almoço
E outros nem sequer um osso
De lambuja pra roer
E quando passa a carrocinha
A gente logo adivinha a conclusão
O vira-lata, coitado
Que não foi matriculado
Desta vez virou sabão
Eu gosto muito de cachorro vagabundo
Que anda sozinho no mundo
Sem coleira e sem patrão
Gosto de cachorro de sarjeta
Que quando escuta a corneta
Sai atrás do batalhão
Eu gosto muito de cachorro vagabundo
Que anda sozinho no mundo
Sem coleira e sem patrão
Gosto de cachorro de sarjeta
Que quando escuta a corneta
Sai atrás do batalhão
Eu gosto muito de cachorro vagabundo
Que anda sozinho no mundo
Sem coleira e sem patrão
Gosto de cachorro de sarjeta
Que quando escuta a corneta
Sai atrás do batalhão
Alberto Ribeiro (Rio de Janeiro, 27 de agosto de 1902 — Rio de Janeiro, 10 de novembro de 1971). Música magistralmente interpretada por Carmen Miranda (Marco de Canaveses, Porto, Portugal, 9 de fevereiro de 1909 – Beverly Hills, Califórnia, Estados Unidos, 5 de agosto de 1955)
Notas: Alberto Ribeiro tornou-se nome de rua no bairro do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. E Carmen Miranda, apelidada de “Brazilian Bombshell”, participou no Brasil de cinco filmes musicais carnavalescos como Alô, Alô, Brasil! (1935) e Alô, Alô, Carnaval (1936) e nos Estados Unidos fez um total de catorze filmes entre as décadas de 1940 e 1950, nove deles somente na 20th Century Fox.
Mundo verde em papelão (Estudo)
Desejos
Belos corpos de mortos que nunca envelheceram,
com lágrimas sepultos em mausoléus brilhantes,
jasmim nos pés, cabeça circundada de rosas –
assim são os desejos que um dia feneceram
sem chegar a cumprir-se, sem conhecerem antes
o prazer de uma noite ou a manhã luminosa.
Konstantinos Kaváfis (Alexandria, Egito, 29 de abril de 1863 – Alexandria, Egito, 29 de abril de 1933). In “Poesia de todos os tempos – Poemas”, 3ª edição, Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1990. Tradução de José Paulo Paes
Lichtenstein na Luz e no sítio
Edifício Embassy, Avenida Prestes Maia, 931 – Luz, onde morei em meados dos anos 80 e do qual trago infinitas recordações, algumas pinturas e inspirados poemas e de onde assistia pela sacadinha do pequeno apartamento os desfiles de carnaval na época em que aconteciam na Avenida Tiradentes, ao lado. Esses desfiles das escolas de samba nessa avenida acabaram em 1990 e foram transferidos para o Anhembi, quando o Sambódromo foi inaugurado. O ponto alto desse prédio era o mural de Lichtenstein pintado em sua fachada nessa época.
Roy Fox Lichtenstein (Nova Iorque, Estados Unidos, 27 de outubro de 1923 — Nova Iorque, Estados Unidos, 29 de setembro de 1997) foi um pintor estadunidense identificado com a Pop Art. Na sua obra, procurou valorizar os clichês das histórias em quadrinhos como forma de arte, colocando-se dentro de um movimento que tentou criticar a cultura de massa. Esse quadrinho encontra-se no sítio e as três figurinhas encontrei na internet
Bárbaras
Os mais doces bárbaros
Com amor no coração
Preparamos a invasão
Cheios de felicidade
Entramos na cidade amada
Peixe Espada, peixe luz
Doce bárbaro Jesus
Sabe quem é otário
Peixe no aquário nada
Alto astral, altas transas, lindas canções
Afoxés, astronaves, aves, cordões
Avançando através dos grossos portões
Nossos planos são muito bons
Com a espada de Ogum
E a benção de Olorum
Como num raio de Iansã
Rasgamos a manhã vermelha
Tudo ainda é tal e qual
E no entanto nada é igual
Nós cantamos de verdade
E é sempre outra cidade velha
Alto astral, altas transas, lindas canções
Afoxés, astronaves, aves, cordões
Avançando através dos grossos portões
Nossos planos são muito bons
Alto astral, altas transas, lindas canções
Afoxés, astronaves, aves, cordões
Avançando através dos grossos portões
Nossos planos são muito bons
Caetano Veloso (Santo Amaro, Bahia, 7 de agosto de 1942). Canção de 1992