O meu Pico

Pico, meu Pico, eis-te agora
como eu gosto de te ver,
a fronte dominadora
sem tristes véus a erguer!
Rasgou-se o manto cinzento
que envolvendo o firmamento
quase inteiro te escondeu,
e o teu talhe aprimorado
lá vou vendo desenhado
no límpido azul do céu!

Como eu te vejo, enlevada,
teu véu de ouro cobrir!
que linda cinta nevada
vem o teu colo cingir!
Dize-me tu – não se acha
doce augúrio nessa faixa
de transparente, alvo tul?
Não prediz ela bonança
num prado cor de esperança,
num céu azul, muito azul?

Prediz-nos serenidade
no espaço, na terra e no mar;
fala-nos na suavidade
dumas manhãs d’encantar!…
Mas sombrio capacete
se acaso cobre, promete,
profetiza o temporal;
a guerra dos elementos,
a fúria solta dos ventos
destruidora, inda mal!

Mas hoje não é meu Pico
o profeta ameaçador!
hoje extasiada fico
diante do seu primor.
Hoje é lindo panorama
que as vistas atrai e chama
com atractivos sem fim!
toda a graça que apresenta
toda a beleza que ostenta,
tem sempre encanto para mim.

Amélia Ernestina Avelar (Vila da Madalena, Ilha do Pico, Açores, Portugal, 1 de maio de 1849 – Angra do Heroísmo, Angola, 13 de outubro de 1887). In “Ensaios poéticos”, Horta, Portugal: Edição da família, 1949

À variedade do mundo

Este nasce, outro morre, acolá soa
Um ribeiro que corre, aqui suave,
Um rouxinol se queixa brando e grave,
Um leão c’o rugido o monte atroa.

Aqui corre uma fera, acolá voa
C’o grãozinho na boca ao ninho üa ave,
Um demba o edifício, outro ergue a trave,
Um caça, outro pesca, outro enferoa.

Um nas armas se alista, outro as pendura
An soberbo Ministro aquele adora,
Outro segue do Paço a sombra amada,

Este muda de amor, aquele atura.
Do bem, de que um se alegra, o outro chora…
Oh mundo, oh sombra, oh zombaria, oh nada!

António Barbosa Bacelar (Lisboa, Portugal, 1610 – Lisboa, Portugal, 15 de fevereiro de 1663). In “Fénix renascida”

Meio dia

Céu baço. Quente quebrando
se espalha, no longe, enquanto
cantam cigarras à roda…

E parou-se a vida toda;
porque o Sol tudo queimou.
Só, no ar quente, pairou
um negro corvo e poisou
sobre o montado sangrando,
nos troncos rudes despidos…

Redobram roucos zumbidos
de moscardos que passando,
em cega-rega, adormecem;
entorpecendo os sentidos…

… Sobre meus olhos cansados
e cerrados
há véus de chamas que descem…

Cristóvam Pavia, pseudônimo de Francisco António Lahmeyer Flores Bugalho (Lisboa, Portugal, 7 de outubro de 1933 – Lisboa, Portugal, 13 de outubro de 1968)

Crisantemas

Tão longe do Fúsi-no-Yama,
No nosso outono, as exiladas
Crisantemas da terra em chama,
Florescem em tardes geladas.

Do seu canto natal de flama
Ainda mal desacostumadas,
Florescem em tardes geladas,
Tão longe do Fúsi-no-Yama!

E uma noite negra de lama,
As que viam noites doiradas,
Caem nas charcas, desfolhadas…
Longe de tudo o que se chama,
Tão longe do Fúsi-no-Yama!

Alberto Osório de Castro (Coimbra, Portugal, 1 de março de 1868 – Lisboa, Portugal, 1 de janeiro de 1946). In “Exiladas”, 1895

104 anos de Sr. Edmundo e 80 da abertura da Farmácia Santo Antônio

Os fac-símiles dos documentos e as páginas escaneadas do livro de registros acima mostram um pouco do histórico profissional do prático de farmácia Edmundo de Oliveira Matosinho, meu querido e amado pai, “paizinho”, como eu o chamava. Em 1945 ele abriu a primeira farmácia da Vila Odilon, em Ourinhos-SP, que chamou de Farmácia Santo Antônio, e a estabeleceu na antiga Rua Paranapanema, nº. 616, atual Rua Padre Rui Cândido da Silva.

Ele a administrou até agosto de 1972, ou seja, durante cerca de 27 anos, sendo que depois ela teve outros proprietários que mantiveram o mesmo nome original. Ela ficou aberta até o final de 1999, totalizando quase 55 anos de serviços prestados à população da Vila Odilon e adjacências.

Hoje Edmundo é nome de rua, situada no Jardim Recanto dos Pássaros III em Ourinhos/ SP, próxima ao rio Pardo, homenagem criada pela Lei n° 6.062 de 14 de abril de 2014, de autoria do ex-vereador Lucas Pocay Alves da Silva, que foi por duas vezes prefeito ourinhense, e sancionada em 22 de abril desse mesmo ano pela antiga prefeita Belkis Gonçalves Santos Fernandes.

Edmundo teve sua vida toda ligada ao interior paulista. Se estivesse vivo hoje faria 104 anos. Nasceu em 13 de maio de 1921 na pequena cidade de Dois Córregos-SP, bem próximo à Jaú-SP, e viveu a primeira infância na área rural do município.

Conversando na tarde de hoje (14/05) pelo WhatsApp com o primo Paulo Sérgio Vianna Mattosinho, ele me contou que Seu Edmundo começou a atuar em farmácia com o avô dele e tio do pai de Paulo Sérgio, o Quinzote, em Timburi-SP. Quinzote veio de Botucatu-SP para Timburi em 1923 e comprou essa farmácia que se chamava Santa Cruz, depois a vendeu, em 1944, para um funcionário que trabalhou anos com ele chamado Theodoro e mudou-se para São Paulo. Acrescenta Paulo Sérgio que meu avô Hildebrando de Oliveira Matosinho administrava a fazenda do avô dele. Hildebrando era primo de minha avó Euthymia de Oliveira Matosinho, irmã do avô dele, e Hildebrando primo do avô dele. Todos eram Oliveira Matosinho. Disse que pelo que saiba eles vieram para Timburi em 1937, depois do falecimento de outro irmão do avô de Paulo Sérgio, o João, que também administrava a fazenda. O João faleceu em 1935 e foi sepultado em Timburi. Conclui dizendo que meu pai Edmundo foi para Ourinhos em 1939, junto com o seu irmão Mauro, para trabalharem.

* Dois Córregos-SP, 13 de maio de 1921 – + São Paulo-SP, 6 de agosto de 1999

Eterno farmacêutico!

Sementeira

Na encosta de uma serra havia um carrascal
Onde nascia o tojo, a esteva, um matagal.
Um dia entrou com êle a foice roçadoura;
Meteram a charrua e fez-se a lavoura.
Foi revolvida a terra e feita a sementeira.
Algum tempo depois, já parecia um mar
O vento sobre o trigo ao longe a ardear!
Foi crescendo, crescendo; a espiga bem dourada
Com o calor do estio em pouco foi ceifada.
E produziu bom pão o terreno maninho,
Onde apenas vencia a urze e o rosmaninho!

Agora quando eu olho essa encosta da serra,
Vejo que é uma lição que nos ensina a terra!

A sociedade é o monte. A escola é o arado.
Quando abrindo o sulco, olhai vá bem guiado…
Depois é semear. Será bela a colheita
Se a semente fôr bôa, e a lama fôr bem feita.

Também hão de dar pão essas searas novas
E darão muita luz à humanidade inteira…

Abri a terra, abri, fazei a sementeira…

Alda Guerreiro (Santiago do Cacém, Portugal, 6 de janeiro de 1878 – Santiago do Cacém, Portugal, 1 de fevereiro de 1943)