Autor: ematosinho
Hoje é
Hoje é o dia de todos os deuses.
A maresia subirá breve
ao terceiro andar.
Virá como quem pede mais um pouco
desta tarde.
Deixo-me ficar enquanto vou
indecisa como quem não sabe.
Se escolho rainha se rei
só eu decido, só eu sei.
Hoje é dia de todos os deuses.
A qualquer deles vou pedir
não só a Zeus, não só a Argos,
não só a Afrodite,
a que o amor consente de todos os modos,
à brisa pedirei
que me deixe partir
a voz em arco
e tudo fruir de outro modo
Ainda que hoje não seja o dia
de todos os deuses
direi
não tenho gênero ou identificação bastantes
que se assemelhe
ao estar
preto no preto branco no branco
Helga Moreira (Quadrazais, Guarda, Portugal, 29 de abril de 1950)
Colagem com fragmentos de pano e plástico
Trabalho com o visto do Profº. Francisco Claudio Granja (1957 – 2020), que me deu aula de “Educação Artística” no EEPG Dalton Morato Villas Bôas, da 5ª. à 7ª. série (1976-1978), Vila Odilon, Ourinhos-SP.
Fragmentos
1
Aceita o transitório; nada do que
é definitivo, dura, te pode atingir
2
Algo de visível perpassa
nos limites do ser.
3
De noite, o vento partiu
um dos vidros das traseiras.
4
Só o ruído da noite sobrevive
à luz e ao furor matinais.
5
(Se aquelas nuvens, no horizonte,
chegassem até mim…)
6
O fragmento, porém, exprime
o estilhaçar da intensidade.
7
No último fragmento, fixa
o efémero e repousa.
Nuno Júdice (Portimão, Mexilhoeira Grande, Portugal, 29 de abril de 1949 – Lisboa, Portugal, 17 de março de 2024). In “Meditação sobre ruínas”
Los viejos hombres de la guerra – À Sarubbi
A um homem do passado
Estes são os tempos futuros que temia
o teu coração que mirrou sob pedras,
que podes recear agora tão fundo,
onde não chegam as aflições nem as palavras duras?
Desceste em andamento; afinal era
tudo tão inevitável como o resto.
Viraste-te para o outro lado e sumiram-se
da tua vista os bons e os maus momentos.
Tu ainda tinhas essa porta à mão.
(Aposto que a passaste com uma vénia desdenhosa.)
Agora já não é possível morrer ou,
pelo menos, já não chega fechar os olhos.
Manuel António Pina (Sabugal, Portugal, 18 de novembro de 1943 — Porto, Portugal, 19 de outubro de 2012). Foi contemplado em 2011 com o Prêmio Camões
26 anos da partida de meu querido pai
“Na minha infância, o farmacêutico era uma das pessoas mais respeitadas na cidade. Muitos deles não tinham diploma na área, não haviam frequentado escolas específicas, mas haviam adquirido conhecimentos por meio da prática iniciada já bem cedo e de muito estudo.
(…)
Em agosto completou-se dez anos do falecimento de Edmundo de Oliveira Matosinho. Ao escrever sobre ele, aproveito a ocasião para homenagear todos os antigos farmacêuticos com os quais convivi na minha infância e adolescência. Edmundo de Oliveira Matosinho nasceu em 13 de maio de 1921, em Dois Córregos (SP), tendo vivido a primeira infância na área rural do município.
Começou a trabalhar em farmácia desde pequeno, primeiramente em Timburi e depois em Ourinhos. Na antiga Rua Paranapanema (atual Pe. Ruy Cândido da Silva), no nº 616, fundou, em 1945, o primeiro estabelecimento farmacêutico da Vila Odilon, que recebeu o nome de Farmácia Santo Antonio. Ali passou grande parte da sua vida atendendo a população carente da vila e arredores, granjeando a estima e admiração dos moradores daquela parte da cidade. Foi casado a profª Maria do Carmo Ferreira, filha de Antonio Ferreira e Laura Silva Ferreira. Tiveram três filhos: Edna, Edson e Eduardo.”
O farmacêutico Edmundo de Oliveira Matosinho – Agosto 30, 2009
Trecho de uma crônica escrita pelo saudoso professor José Carlos Neves Lopes em seu blog “Memórias Ourinhenses – Fotos e fatos de uma cidade paulista”
Edmundo de Oliveira Matosinho – Eterno farmacêutico!
* Dois Córregos/ SP, 13 de maio de 1921 – + São Paulo/ SP, 6 de agosto de 1999
Maria Clara: Evolução
“Artes da minha filha Maria Clara, ama pintura”.
Rosângela Devienne Henriques, prima
Picasso se retratando e eu estudando
Retrato 3
Uma demora lenta nas palavras
um calor bom na palma das mãos
uma maneira de gostar das pessoas e das coisas
sem tolher movimentos ou forçar as superfícies
beber aos golinhos o café a ferver
ou o whisky chocalhado com pedrinhas de gelo
viver viver roçando as coisas ao de leve
sem poupar o veludo das mãos e do corpo
sem regatear o amor à flor da pele
olhar em torno de si perdida ou esperar o verão
e saber de um saber obscuro que o calor
todo o calor é de mais dentro que vem
Rui Caeiro (Vila Viçosa, Portugal, 27 de junho de 1943 – Oeiras, Portugal, 29 de janeiro de 2019). In “Livro de afectos”, Lisboa, edição do autor, 1992