A al-mutamid

fitei intensamente a lua:
era o teu rosto
na noite do desespero.
de ti tive abundância
em tempo de penúria.
pude viver em graça
no abrigo que me davas.

ai, a saudade dessa estima antiga!
doce era ser sob a tua sombra:
errava no verde prado
perto da fonte de água fresca!

Ibn ʿAmmār, pseudônimo de Abubecre Ibne Amar ou Abenamar (Aldeia de Xanabus, Alandalus, Península Ibérica na época do domínio islâmico, 1031 — 1086)

Começo

Vejo-te um pouco como se já não houvesse
uma casa para nós. As grandes perguntas estão aí
por todo o lado, onde quer que se respire, dentro
dos próprios frutos. É o começo da noite
e os cinzeiros já estão cheios de meias palavras:
porque escolhemos tão pouco
aquilo que nos pertence?
Vejo-te de olhos fechados enquanto me confiavas
a tua história – à mesa da cozinha, quase um espelho,
quase uma razão. As minhas canções preferidas
pareciam convergir para ti a certa altura, dir-se-ia
que te vestias com elas. E no entanto
como se apressaram as grandes florestas a invadir
as gavetas, como misturaram as raízes
no eco que fazia o teu desejo contra mim.

Rui Pires Cabral (Chacim, aldeia do concelho transmontano de Macedo de Cavaleiros, Portugal, 1 de outubro de 1967). In “A super-realidade”, 2011

Se

Bateu saudade
Escrevo o certo por
linhas t     r            s
                 o       t
                              a

Não sei o que pensei
se pensei foi pra valer
Ou melhor
Pensei no que pensei
parei não sei dizer
Quero te encontrar dançar
e rebolar pra danar
e estar com você

N(e)sse te(u) an(m)o

Chico

A poesia está na minha cabeça
E as mãos no seu lugar
Coloco as mãos na cabeça
E faço a poesia da mão na cabeça
Seria algo assim:
A mão está na cabeça e não a vejo
Ela está sobre a poesia
A poesia cresce
E a mão fica no lugar
Chico me deu uma mão na poesia
Deu poesia na cabeça
A sua mão é igual a minha
Diferindo a poesia
Nela falei de poesia
E Chico de mão

Do’je em dia

Acordei pensando em escrever no que fazer e achei que tudo que estava feito já estava escrito. O que deveria fazer era ler para aprender sobre o que estava feito e refazer para melhor.

O que ler? Algo que não fale o mesmo o que se fala, para se fazer um fato, ter algo que o faça ruim para uma face, mesmo que obscura, acontece. Lerei algo que seja eterno, fraterno, calmo… Sem finidade para o bem visto de uma face que tenta corrigir o ruim. Pô, estou escrevendo algo que me contraria, pois desejava escrever só o que ler! Parece que nada que vejo escrito em casa me satisfaz nas duas faces. Meu pai era direitista, cuidado! Como já disse quero ler algo finito para o mal.

Vou ler a religião, algo que não consigo imaginar. Achando melhor, não vou ler. Vou ler o romance dos “Meninos dos pés grandes”. Bom… Epa, pisaram na cabeça d’um. Como Do’je em dia, Malaquia! Um só vive pisando noutro e passando pra lá, escorregando na cola e subindo pra baixo. Do’je em dia não! Quero ler algo de bão pra não do’jeemdiar.

Do’je em dia tô ficando louco. Tudo se relaciona; até mesmo o gato correndo atrás do rato e o cavalo comendo sapé.

Do’je em dia posso imaginar como escapar do’je em dia. Me persegue em tudo, até no ler. No ler algo de bão. Se vou escrever nem se fala. Do’je fui escrever e a caneta escorregou. Do’je em dia é comum algo escorregar.

Em vez de ler vou pensar! Entra – sai – sai – entra, ideia não tem. Vejo uma pista muito louca e os lados do cérebro se chocando. Do’je morreu d’um desastre. Espero que seja a parte do Do’je em dia.

Merda de papel! Pooh! Aí minha mão, soquei um papel duro de ideia. SOS… Me sai da cabeça maldito progresso. Tá bom…

Do’je em dia não tem solução. Vou fazer uma lavagem cerebral. _Por favor seu moço, tire o Do’je em dia de minha cabeça. _Não dá, o aparelho mecânico quebrou! _Não! Tire ca’s mãos. Que quer me por mais do’je em dia ainda? Saí de lá sem do’je em dia e me vi no Éden. Adão estava seduzindo a Eva. Do’je em dia aconteceu isso. Do’je em dia sai de mim, peste. Quero viver no Éden numa boa. Saí do do’je em dia e entrei no hippie que é de Do’je em dia. Entrei e saí de tudo que é humano e o ser me faz pensar no Do’je em dia, ou melhor, Do’je em dia é o ser humano. _Sai-me de mim, eu! E você fique quieto! Morram todos vocês e os seus do’je em dias que os fazem pensar melhor futuro.

02/08/80