Glória do fim de semana

Alguns irmãos marrentos
não conhecem os fatos,
posam presunçosos
fingem importância,
esticando os pescoços
e forçando suas costas.

Se mudam para condomínios
de alto padrão,
penhoram suas almas
nos bancos locais.
Compram carros grandes
que não podem pagar,
e rodam pela cidade
fingindo tédio.

Se eles querem aprender como viver direito,
deveriam me analisar numa noite de Sábado.

Meu trabalho na fábrica
não é a maior aposta,
mas eu pago minhas contas
e fico fora das dívidas.
Eu arrumo meu cabelo
para meu próprio bem-estar,
para não ter que pentear
para não ter que desembaraçar.

Pego o dinheiro da igreja
e atravesso a cidade
até a casa da minha amiga
onde planejamos nosso rolê.
Encontramos nossos homens e vamos para um lugar
onde toque blues
no ponto certo.

Pessoas escrevem sobre mim.
Eles simplesmente não conseguem ver
como eu trabalho a semana inteira
na fábrica.
Então, me enfeito
e rio e danço
e dou as costas à preocupação
com um olhar atrevido.

Eles me acusam de viver
um dia após o outro,
mas quem eles querem enganar?
Eles fazem o mesmo.

Minha vida não é o paraíso,
mas certamente não é o inferno.
Eu não estou no topo,
mas eu acho que tá tudo bem
se eu sou capaz de trabalhar
e sou paga em dia
e tenho a sorte de ser Negra
num Sábado à noite.

Maya Angelou (St. Louis, Missouri, Estados Unidos, 4 de abril de 1928 — Winston-Salem, Carolina do Norte, Estados Unidos, 28 de maio de 2014). “Shaker, Why Don’t You Sing?” (1983). In “Poesia completa”. Tradução de Lubi Prates, Bauru – São Paulo: Editora Austral Cultural, 2020

Canção da manhã

O amor faz você funcionar como redondo relógio de ouro.
A parteira bateu em seus pés, e seu grito nu
Tomou lugar entre os elementos.

Nossas vozes ecoam, exaltando sua chegada. Estátua nova
Num museu arejado, sua nudez
Assombra nossa segurança. Ficamos ao redor, brancos como paredes.

Sou sua mãe
Tanto quanto a nuvem que destila um espelho que reflete seu lento
Desaparecimento na mão do vento.

À noite toda seu hálito de mariposa
Flutua entre rosas lisas. Acordo e ouço:
Longe, um mar se move em meu ouvido.

Um grito, e cambaleio para fora da cama, vaca obesa e florida
Em minha camisola vitoriana.
Sua boca se abre, limpa como a de um gato. A janela

Embranquece e engole suas estrelas torpes. E agora você ensaia
Seu punhado de notas;
As vogais claras sobem como balões.

Sylvia Plath (Boston, Estados Unidos, 27 de outubro de 1932 — Londres, Inglaterra, 11 de fevereiro de 1963). In “Ariel”, edição fac-simile. Tradução de Rodrigo Garcia Lopes e Maria Cristina Lenz de Macedo. Campinas – São Paulo: Verus Editora, 2007

Alba

Enquanto o rouxinol à sua amante
Gorjeia a noite inteira e o dia entrante
Com meu amor observo arfante
Cada flor,
Cada odor,
Até que o vigilante lá da torre
Grite:
      “Levanta patife, sus!
            Vê, já reluz
                   A luz
                   Depressa, corre,
                   Que a noite morre…”

Ezra Pound (Hailey, Idaho, Estados Unidos, 30 de outubro de 1885 — Veneza, Itália, 1 de novembro de 1972). Tradução de Mário Faustino. In “Ezra Pound: poesia”, organização, introdução e notas de Augusto de Campos; prefácio Haroldo de Campos, edição bilíngue. São Paulo: Hucitec; Brasília: Editora da UnB, 1983

Marina

Quis hic locus, quae regio, quae mundi plaga?

Que mares que praias que rochas grises que ilhas
Que águas a lamber a proa
Que aroma de pinho e gorjeio de tordo na neblina
Que imagens retornam
Ó minha filha.

Aqueles que os dentes do cão afiam, significando
Morte
Aqueles que na glória do colibri cintilam, significando
Morte
Aqueles que na pocilga da satisfação se assentam, significando
Morte
Aqueles que do êxtase dos animais partilham, significando
Morte

Tornam-se incorpóreos, reduzidos a nada por um golpe de vento
Uma exalação de pinho, e a neblina da canção silvestre
Por esta graça no espaço se dissolve.

Que há neste rosto, menos claro e mais claro
O pulso no braço, menos forte e mais forte
— Dado ou emprestado? Mais distante que as estrelas e mais próximo que os olhos
Sussurros e risinhos entre folhas e pés precipites
Submersos no sono, onde todas as águas se entrelaçam.

O gurupés no gelo se espedaça, a pintura ao calor estala.
Eu o fiz, e esqueci
E recordo.
A cordoalha frouxa e o velame em farrapos
Entre certo junho e outro setembro.
E o fiz desconhecido, semiconsciente, ignoto, meu.
O verdugo da carcaça faz água, as fendas reclamam o calafate.
Esta forma, este rosto, esta vida
Vivendo por viver numa esfera de tempo que me excede. Que eu possa
Renunciar à minha vida por esta vida, à minha fala pelo inexpresso,
O desperto, lábios abertos, a esperança, os novos barcos.
Que mares que praias que graníticas ilhas contra minha quilha
E que tordo chama através da neblina
Minha filha.

T. S. Eliot (St. Louis, Estados Unidos, 26 de setembro de 1888 – Londres, Inglaterra, 4 de janeiro de 1965). In “Poesia”. Tradução, introdução e notas de Ivan Junqueira. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1981