Inverno 3

Outrora, quanta vida e amor nestas formosas
Ribas! Quão verde e fresca esta planície, quando,
Debatendo-se no ar, os pássaros, em bando,
O ar enchiam de sons e queixas misteriosas!

Tudo era vida e amor. As árvores copiosas
Mexiam-se, de manso, ao resfolego brando
Da brisa que passava em tudo derramando
O perfume sutil dos cravos e das rosas…

Mas veio o inverno; a vida e amor foram-se em breve…
O ar se encheu de rumor e de uivos desolados…
As árvores do campo, enroupadas de neve,

Sob o látego atroz da invernia que corta,
São esqueletos que, de braços levantados,
Vão pedindo socorro à primavera morta.

Francisca Júlia da Silva (Xiririca, depois Eldorado Paulista, hoje Eldorado, São Paulo, 31 de agosto de 1871 – São Paulo, 1 de novembro de 1920)

Rosa

Eu assassinei o nome
da flor
e a mesma flor forma complexa
simplifiquei-a no símbolo
(mas sem elidir o sangue).

Porém se unicamente
a palavra FLOR – a palavra
em si é humanidade
como expressar mais o que
é densidade inverbal, viva?

(A ex-rosa, o crepúsculo
o horizonte.)

Eu assassinei a palavra
e tenho as mãos vivas em sangue.

Orides Fontela (São João da Boa Vista, São Paulo, 1940 — Campos do Jordão, São Paulo, 1998)

O anagrama

Dos vates a antiga usança
Quis respeitoso seguir,
Ensaiando em anagrama
Teu doce nome exprimir;
Mas a mente em vão se cansa,
No desejo que me inflama
Nada me vem acudir.

Não desistindo da ideia,
Volto a ela sem cessar;
Diversos nomes invento,
Sem nenhum poder achar,
Que seja nome de ideia,
E se preste ao meu intento,
Sem o teu muito ocultar.

Vendo alfim que não podia
Teu anagrama fazer;
Que quantos eu inventava
Nada queriam dizer;
Uma ideia à fantasia,
Quando já nada esperava,
Me veio enfim socorrer.

Foi ideia luminosa,
Direi quase inspiração,
Pois que senti de repente
Palpitar-me o coração.
Sua força imperiosa
Foi tal, qu’eu obediente
Dei-lhe pronta execução.

De papel em uma fita
Teu lindo nome escrevi;
Pondo as letras separadas,
Co’a tesoura as dividi.
Cada solta letra escrita
Enrolei, e baralhadas,
Numa caixinha as meti.

Tudo ao acaso deixando,
Da sorte o cofre agitei;
E tirando-as de uma em uma,
Uma após outra as tracei.
Oh prodígio! Oh pasmo! Quando
Esta maravilha suma
De um mero acaso esperei?

Já Urânia — escrito estava!
Foi Amor quem o escreveu!
Não, não foi obra do acaso;
Teu nome veio do céu!
Aquele — já — me ordenava
Que da Urânia do Parnaso
Fosse o nome agora teu.

Que para mim renascida
A Musa Urânia serás.
Que ao céu e a Deus minha mente
Tu sempre levantarás.
Musa real, não fingida,
Unida a mim ternamente,
Celeste amor me terás.

Gonçalves de Magalhães (Rio de Janeiro, 13 de agosto de 1811 – Roma, Itália, 10 de julho de 1882). In “Urânia”, 1862

Cor-respondência

Remeta-me os dedos
em vez de cartas de amor
que nunca escreves
que nunca recebo.
Passeiam em mim estas tardes
que parecem repetir
o amor bem feito
que você tinha mania de fazer comigo.
Não sei amigo
se era o seu jeito
ou de propósito
mas era bom, sempre bom
e assanhava as tardes.
Refaça o verso
que mantinha sempre tesa
a minha rima
firme
confirme
o ardor dessas jorradas
de versos que nos bolinaram os dois
a dois.
Pense em mim
e me visite no correio
de pombos onde a gente se confunde
Repito:
Se meta na minha vida
outra vez meta
Remeta.

Elisa Lucinda (Cariacica, Espírito Santo, 2 de fevereiro de 1958)

Camponesa/ Campesina

Camponesa

Nos sulcos, corpo de moreno anseio,
és como um ramo que na terra chega.
Volta teus olhos, olha nos teus seios,
são duas sementes ácidas e cegas.

Tua carne é terra que será madura
quando o outono as mãos for te oferecer,
e o sulco que será tua sepultura
tremerá, tremerá, um humano ser,

ao receber tuas carnes e teus ossos

– rosas com polpa de rosas de cal:
rosas que aos primeiros beijos nossos
vibraram com um cálice de cristal -.

A palavra, de que pleno conceito
será teu corpo? Não se vai conhecer!
Torna teus olhos ternos, olha os seios,
talvez não chegarás nunca a florescer.

§

Campesina

Entre los surcos tu cuerpo moreno
es un racimo que a la tierra llega.
Torna los ojos, mírate los senos,
son dos semillas ácidas y ciegas.

Tu carne es tierra que será madura
cuando el otoño te tienda las manos,
y el surco que será tu sepultura
temblará, temblará, como un humano

al recibir tus carnes y tus huesos

– rosas de pulpa con rosas de cal:
rosas que en el primero de los besos
vibraron como un vaso de cristal -.

La palabra de qué concepto pleno
será tu cuerpo? No lo he de saber!
Torna los ojos, mírate los senos,
tal vez no alcanzarás a florecer.

Pablo Neruda (Parral, Chile, 12 de julho de 1904 — Santiago, Chile, 23 de setembro de 1973). In “Crepusculário”. Edição Bilíngue. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2011. (Tradução de José Eduardo Degrazia)

Dois artistas do Porão da Pontes: San Bertini e Cirton Genaro

O Porão da Pontes, espaço idealizado pelos curadores Danilo Blanco, Fernando Zelman e Luis Castañón, expôs em finais de 2010 alguns artistas consagrados e talentos emergentes da arte contemporânea brasileira nas mostras “P” e “Bicho”. Desses artistas destaco dois trabalhos que gostei:

San Bertini – “Classificados, empregos”

Cirton Genaro – “Fim de tarde”